Segunda edição de “Filhos dos Heróis, Aquecidos pelo Sol e pelo Amor” levou crianças ucranianas a viver experiências longe da realidade da guerra. Iniciativa da Associação de Mulheres Ucranianas em Portugal contou com o apoio de diversas instituições e voluntários.
Durante duas semanas, o som das ondas substituiu, por alguns momentos, o peso de uma realidade que nenhuma criança deveria conhecer. Vinte crianças ucranianas estiveram em Portugal na primeira e na segunda semana de agosto, numa experiência pensada para lhes proporcionar dias de descanso, alegria e novas memórias, longe, ainda que temporariamente, da guerra que continua a marcar as suas vidas.
O programa, chamado “Filhos dos Heróis, Aquecidos pelo Sol e pelo Amor ”, é organizado pela Associação de Mulheres Ucranianas em Portugal – presidida por Natália Varah – e nasceu da vontade de oferecer às crianças um tempo para serem simplesmente crianças. A iniciativa foi idealizada por Maria João Ramos, que trabalha com refugiados e é responsável pela organização e programação das atividades.

Segundo Maria João, muitas das crianças chegam marcadas pelas experiências provocadas pela guerra “É para as crianças saírem da guerra durante duas semanas”, explica.
Algumas delas nunca tinham visto o mar. E foi justamente diante do oceano que muitas dessas crianças puderam descobrir uma experiência tão simples para quem vive em Portugal, mas tão especial para quem chega de um país em guerra: sentir a água, brincar na praia, correr, rir e descobrir algo novo sem que a preocupação do dia seguinte estivesse presente.
Quando a infância ganha espaço novamente
Por trás das fotografias sorridentes, dos passeios e dos dias de diversão, houve quase seis meses de preparação. Foram centenas de chamadas, mensagens, e-mails, reuniões e pedidos de apoio. Foi preciso organizar transportes, refeições, bilhetes, atividades e toda a estrutura necessária para receber o grupo. A recompensa veio nos pequenos momentos.
Nas crianças a escolher o que levar para a praia. Nas conversas sobre qual foi a melhor atração. Nos risos durante os passeios. Nas fotografias tiradas para guardar uma lembrança de Portugal. Durante a estadia, o grupo visitou o Estádio da Luz e o Museu Benfica, Cosme Damião, esteve no Zoomarine Algarve e no Jardim Zoológico de Lisboa e conheceu o Museu Nacional dos Coches e o Museu de Marinha.

Houve também uma visita a Fátima, acompanhada pelo padre Mykola Yarema, que esteve com as crianças durante o passeio e lhes apresentou aquele lugar de forma próxima e acolhedora. Para algumas delas, foi a primeira vez num santuário. Para outras, foram os animais, o estádio, os museus, a piscina ou simplesmente o mar que acabaram por ficar entre as memórias mais fortes da viagem.
São experiências aparentemente simples.Mas, para crianças que cresceram sob o impacto de uma guerra, podem significar muito.
Uma viagem feita por muitas mãos
O programa só foi possível graças a uma rede de pessoas e instituições que se juntaram à iniciativa. A Junta de Freguesia de Benfica foi uma das principais apoiantes, acompanhando a organização durante a preparação e realização das atividades.
Também contribuíram para a iniciativa a Assembleia da República, a Junta de Freguesia de Belém, o Sport Lisboa e Benfica, o Zoomarine Algarve, o Jardim Zoológico de Lisboa, o Museu Nacional dos Coches, o Museu de Marinha e o Pedra Amarela Campo Base, entre outras entidades.
A Embaixada da Ucrânia em Portugal, a Igreja Greco Católica Ucraniana em Lisboa e a Igreja Ortodoxa Ucraniana do Patriarcado Ecuménico em Lisboa também apoiaram a iniciativa. Na comunidade ucraniana, houve ainda quem abrisse as portas, preparasse refeições, ajudasse nos deslocamentos e estivesse presente sempre que era necessário.
E houve os voluntários. Pessoas que chegavam de manhã para ajudar nos pequenos almoços e voltavam à noite para os jantares. Que acompanhavam as crianças nas viagens, carregavam materiais, organizavam atividades, resolviam imprevistos e, muitas vezes, faziam tudo isso depois de um dia inteiro de trabalho.
Entre eles estiveram Oksana Kucher, Oksana Pasakas, Olia Petriv, Ivanka Stasiv, Olia Zanevchyk, Tetiana Polianovska, Liudmyla Kubriak, Natalia Natrobina, Zhanna Pasichnyk e Alla Skrypets.
Os jovens da comunidade também tiveram um papel especial. Integrantes das chamadas “Asas da Associação”, entre eles Natalia Kuziv, Lilia Pasakas, Diana Varha, Daniela Stasiv, Sofia Kucher, Oleksandr Varha, Daniel Kuziv, Stanislav Fareira e Petro Pasakas, acompanharam as crianças, brincaram com elas, conversaram e ajudaram a transformar os dias em Portugal em momentos de amizade e pertença.
Quando chega a hora de partir
Talvez a parte mais difícil tenha chegado no fim. Depois de duas semanas de convivência, passeios e descobertas, chegou o momento de regressar. Vieram os abraços. Vieram as lágrimas. E veio uma pergunta curta, mas capaz de dizer muito sobre o que aqueles dias significaram: “Vamos voltar?”
Foi nesse momento que, para quem esteve envolvido na organização, todo o trabalho dos meses anteriores ganhou sentido. As noites de preparação, as chamadas, as preocupações, os pedidos de apoio, os imprevistos e o cansaço ficaram pequenos diante da possibilidade de aquelas crianças levarem consigo algo que a guerra não conseguiu tirar-lhes: novas memórias felizes.

Não é possível devolver tudo aquilo que a guerra já levou. Mas é possível criar momentos em que ela não ocupa todo o espaço. Um dia de praia. Uma visita a um estádio. Uma ida ao zoológico. Um passeio a Fátima. Um gelado. Uma fotografia. Uma gargalhada entre amigos.
Por duas semanas, Portugal foi esse lugar. Um lugar onde vinte crianças puderam conhecer o mar, descobrir novos lugares e, acima de tudo, viver alguns dias com a leveza que pertence à infância.
Uma iniciativa que quer continuar
“Filhos dos Heróis, Aquecidos pelo Sol e pelo Amor” chega agora à sua segunda edição e, segundo a organização, a iniciativa deverá continuar a ser realizada anualmente. Para Maria João Ramos, o trabalho não termina com o regresso das crianças. Fica a vontade de continuar a criar oportunidades para que outras possam também viver momentos de tranquilidade e alegria longe da realidade da guerra.

Empresas, instituições e particulares que queiram apoiar futuras edições podem procurar a Associação de Mulheres Ucranianas em Portugal. Porque há momentos em que ajudar não significa resolver uma guerra. Significa apenas oferecer a uma criança duas semanas em que a maior preocupação seja escolher entre ir à praia ou à piscina.
E, às vezes, isso já é muito.





