Este aquecimento global dos oceanos impulsiona o fenómeno da tropicalização, diz o especialista, levando espécies antes restritas a latitudes meridionais a procurarem novos nichos ecológicos na costa portuguesa. “Cada vez temos mais ocorrências de espécies que anteriormente não se encontravam em latitudes superiores, e que estão a aproveitar esta onda de calor, e, portanto, estes períodos anómalos mais quentes, para no fundo expandirem a sua área geográfica”, explica o investigador, acrescentando que este processo decorre num planeta globalizado marcado pelo Antropoceno – referindo-se ao período em que as atividades humanas passaram a ter um impacto global significativo no clima e nos ecossistemas da Terra.
Além das correntes oceânicas quentes, que funcionam como autênticas ‘autoestradas biológicas’, permitindo que espécies tropicais e subtropicais migrem para novas latitudes mais a norte, Rui Rosa menciona também o transporte marítimo global como um dos principais responsáveis pela proliferação de espécies invasoras, que chegam quer nas águas de lastro dos navios, quer por incrustação biológica nos seus cascos. Como sublinha o investigador, estas “espécies invasoras têm uma capacidade de se adaptar aos novos habitats extremamente rápida e encontram condições propícias para se propagar, e podem, muitas vezes, ser consideradas como vencedoras, nestes contextos de alterações globais, em altas temperaturas”, acrescentando: “E, como em tudo na vida, há vencedores e vencidos, e a nossa experiência diz-nos que estas espécies são, por norma, predadoras.”
O impacto no prato: a sardinha magra
A mesma água tépida onde o banhista adora nadar no verão poderá ser a razão por que a sardinha está mais magra na grelha e o peixe está mais caro. A falta de alimento no ecossistema marinho ou as migrações de cardumes para outras paragens de temperaturas mais a seu gosto serão a justificação para peixe mais escasso, menos suculento ou até com outro paladar, como explica o professor Rui Rosa.
É que à tropicalização dos mares e invasão de predadores soma-se a escalada do dióxido de carbono atmosférico. Antes da Revolução Industrial, os valores oscilavam entre as 200 e as 280 partes por milhão (PPM); hoje, a fasquia superou largamente as 400 PPM, explica, e poderá atingir as 1000 PPM no final do século se nada se fizer. Este excesso reflete-se na superfície oceânica, desencadeando a acidificação das águas e a redução do oxigénio dissolvido. O impacto desta química alterada estende-se diretamente à restauração e ao consumidor, diz o investigador do MARE: “As condições ambientais condicionam, por exemplo, a composição bioquímica dos organismos. Ou seja, questões como o aquecimento, ou mesmo questões ligadas à acidificação, já foi provado cientificamente que alteram a constituição bioquímica dos organismos. Se altera a constituição bioquímica dos organismos, isso vai-se traduzir, por exemplo, nas suas próprias propriedades organoléticas e, portanto, no sabor e coisas associadas a este sentido.”






