Flexibilidade: A chave para tornar a transição energética eficiente

“Nos últimos meses, o setor elétrico português tem vivido um paradoxo difícil de explicar para quem não acompanha de perto o funcionamento do mercado: em várias horas do dia, o preço da eletricidade no mercado grossista é zero — ou mesmo negativo — e, ainda assim, o custo global de manter o sistema elétrico a funcionar nunca foi tão elevado.

Desde o início de 2026, cerca de 6% das horas o preço foi zero e aproximadamente 8% das horas do mercado registaram preços negativos. Estes valores são reflexo de um sistema elétrico com forte incorporação de renováveis, capaz de produzir grandes volumes de energia limpa e competitiva. O paradigma, contudo, mudou: hoje é cada vez menos relevante quanto se produz, mas sobretudo quando se produz/consome.

Desfasamento temporal provoca escalada de custos

Sempre que a produção renovável ocorre em momentos que não coincidem com o consumo, o custo de manter o equilíbrio do sistema aumenta significativamente. E é este desfasamento temporal que ajuda a explicar a escalada recente dos custos do sistema elétrico. Durante anos, os encargos associados à sua gestão do sistema rondaram os 3 a 4 €/MWh. Em fevereiro deste ano, estes custos ultrapassaram os 36 €/MWh. No mesmo período, o preço médio da energia no mercado situou-se entre os 11 e os 12 €/MWh. Isto significa que produzir energia foi barato, mas gerir o equilíbrio desse sistema foi extraordinariamente caro.

Este desequilíbrio não resulta de uma escassez estrutural, mas de uma abundância não sincronizada com o consumo. Produzimos eletricidade quando o sol brilha e o vento sopra, mas continuamos a consumir de forma rígida, pouco sensível às condições do sistema. O problema deixou de estar apenas na produção ou na capacidade instalada e passou a estar no alinhamento dinâmico entre oferta e procura.

Durante a última década, focámo-nos em dois grandes desafios. Primeiro, na eficiência e na competitividade, reduzindo consumos, negociando melhores preços e integrando produção descentralizada, como o fotovoltaico. Depois, a descarbonização, eletrificando processos e aumentando a incorporação de energia renovável. Estes dois vetores continuam a ser essenciais, contudo já não são suficientes.

Um novo e incontornável driver

A nossa experiência no terreno mostra que surge agora um novo driver, cumulativo e incontornável: a flexibilidade. Um novo layer que não substitui a eletrificação nem o autoconsumo, mas que deve caminhar cada vez mais de mãos dadas com eles. Flexibilidade significa ajustar a procura às condições do sistema. Ou seja, consumir mais quando a energia é abundante, renovável e barata e consumir menos quando é escassa, cara ou mais intensiva em carbono.

Neste novo contexto, o consumidor terá definitivamente de abandonar a figura de agente passivo. O mesmo acontece com os edifícios, que já não são meros pontos de consumo, mas também de produção, armazenamento e gestão ativa de energia. Pontos de consumo com cada vez mais ativos e mais complexidade (fotovoltaico, mobilidade elétrica ou o storage) introduzem elasticidade e aumentam a resiliência do próprio sistema elétrico.

As respostas clássicas — mais produção ou mais rede — são necessárias, mas insuficientes. Sem flexibilidade, o sistema torna-se estruturalmente mais caro e até mais difícil de explicar à sociedade. Com a flexibilidade, a energia renovável deixa de ser apenas limpa, passa também a ser usada de forma eficiente.

A transição energética não depende, apenas e só, de produzir mais, mas sim de utilizar melhor o que já produzimos e, sobretudo, no momento certo. Caso contrário, arriscamo-nos a normalizar um paradoxo que não é sustentável: energia gratuita em determinados momentos do dia, mas um sistema elétrico cada vez mais caro no seu conjunto.”

Fonte: www.noticiasaominuto.com

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