Enfatizo a questão da relação entre Washington e Londres, neste caso entre Trump e Burnham, pelo peso histórico que tem nas relações transatlânticas, e no próprio contexto da NATO. Tradicionalmente um dos países que cumpria os 2% do PIB em orçamento de Defesa, uma exigência dos americanos aos parceiros europeus que é anterior à chegada de Trump ao poder, o Reino Unido debate-se agora com dificuldades para atingir os 3%, e até 2035 o objetivo é 5% (3,5 mais 1,5 de uso dual), segundo foi acordado na Cimeira da NATO em Haia, no ano passado, e reafirmado há semanas na cimeira que se realizou em Ancara.
Mas os britânicos são uma das potências europeias, senhores de um arsenal nuclear, e com bases militares mundo fora que, em muitos casos, são estratégicas para os Estados Unidos, como a de Diego Garcia, no Índico. Esta base britânica é considerada tão vital no Índico para a projeção de força americana, como as Lajes o são no Atlântico e Guam o é no oceano Pacífico. E, além disso, há toda a relação de confiança histórica construída entre os dois países anglo-saxónicos, depois de ultrapassada a rutura de há 250 anos, que levou à recentemente muito celebrada Declaração de Independência dos EUA.
Depois da Guerra da Independência, e de uma segunda guerra logo no início do século XIX, americanos e britânicos tornaram-se os melhores dos aliados. Tal foi evidente nas duas guerras mundiais, contra a Alemanha, e na Guerra Fria, contra a União Soviética.
Mais do que certas diferenças no nível de apoio a dar à Ucrânia frente à Rússia, foi a recusa inicial do Reino Unido de autorização utilização das bases para o ataque de fevereiro deste ano ao Irão que veio abanar a chamada relação especial. O bom entendimento que Starmer, eleito em 2024, se esforçara por manter com Trump desde a tomada de posse deste em janeiro de 2025, esfumou-se e foi preciso Carlos III (longínquo neto desse Jorge III que os rebeldes americanos rejeitaram) visitar os Estados Unidos em finais de abril para sarar feridas com discursos extremamente bem preparados (pela diplomacia britânica) e um toque muito pessoal de bom humor e charme.
Trump comentou, assim que soube das probabilidades de Burnham chegar a primeiro-ministro, que lhe parecia alguém muito liberal. Ora, liberal, na linguagem política americana, quer dizer muito à esquerda, bem mais próximo dos democratas do que do Partido Republicano do atual presidente.






