Macau, uma ligação profunda e transformadora (II)

“Seria um erro não recuperar aquele edifício nos termos em que se encontra a ser recuperado. Em boa hora, alguém se lembrou de preservar o edifício e de instalar ali o Tribunal de Última Instância e o Gabinete do Tribunal de Última Instância, devolvendo-lhe a dignidade que outrora teve. Está bem entregue”, considera.

Onde a madrugada acaba e o dia começa

Piretus, Tribo, Kurumba, Mondial, Banza, Afonso. Com o passar dos anos, Macau deixou de ser apenas um lugar de estudo e de trabalho para se tornar um espaço de pertença emocional e o enraizamento passou, em grande medida, pela cumplicidade e pelos laços criados em restaurantes, bares e discotecas, alguns há muito desaparecidos.

No mapa dos afetos de Álvaro Rodrigues, espaços como o Piretus e o Mondial adquiriram uma importância fundamental, ao contribuírem para o fortalecimento de vínculos pessoais. Ajudaram-no a entranhar-se na cidade, a sentir-se integrado e acompanhado, longe de Cabo Verde, mas nunca verdadeiramente sozinho. Dos antigos pontos de convergência, apenas um – o restaurante Kruatheque, na Rua de Henrique de Macedo – resistiu ao volver dos anos.

“Nos primeiros tempos, vivíamos na Taipa, mas trabalhávamos na península, e fomos, aos poucos, alargando horizontes e conhecendo – e convivendo com – novas pessoas. Neste capítulo do convívio, havia o Piretus, uma discoteca africana que serviu durante algum tempo como ponto de encontro para os africanos radicados em Macau, e, depois disso, a discoteca Tribo e o Kurumba”, conta o advogado. “Havia também o famoso Mondial e o Kruatheque, que funcionavam como locais de convergência para quem saía à noite, ao fim da madrugada ou ao início da manhã. Estes foram alguns dos lugares que moldaram a minha vivência”, reconhece.

Macau transformou-se profundamente, mas continua a ser, aos olhos de Álvaro Rodrigues, uma terra de oportunidades. Mantém laços afetivos e alguns investimentos em Cabo Verde, mas sente-se hoje profundamente enraizado na cidade que o acolheu quando era apenas um estudante recém-chegado. Depois de três décadas e meia, não guarda mágoas pelo rumo que o destino lhe traçou. Pelo contrário, nutre uma gratidão serena e profunda por uma cidade que, contra todas as expectativas iniciais, se tornou casa.

Texto de: Marco Carvalho

Extraído da REPORTAGEM da Secção: ‘+Macau • A Minha Cidade’, publicada na ‘Revista Macau’, julho de 2026.

Fonte: www.dn.pt

Leia também

Colunistas

- Publicidade -
0FãsCurtir
0SeguidoresSeguir
0InscritosInscrever