Desinformação invade redes sociais durante crise migratória em Ceuta

Alegações: “nem uma única mulher” e “polícia espanhola atacada pelos marroquinos” 

Na manhã de quinta-feira, 30 de julho, os enclaves espanhóis de Ceuta e de Melilla, situados no continente africano, no norte de Marrocos, foram alvo de uma vaga de entradas irregulares de dezenas de milhares migrantes, sobretudo jovens marroquinos que nadaram em torno do espigão de El Tarajal, que serve de fronteira em Ceuta, ou saltaram as vedações, e de imediato o tema invadiu as redes sociais.

Uma das principais narrativas que circula desde as primeiras horas é a de que Espanha estava a ser “invadida por homens em idade militar”, como denunciou Santiago Abascal, líder do partido de extrema-direita espanhola, o Vox: https://archive.ph/Muvyw.

A teoria de que “nem uma única mulher” surgia nas imagens da crise entre Marrocos e Espanha foi repetida por várias contas nacionais e internacionais, algumas com centenas de milhares de visualizações: https://archive.ph/3WM83, https://archive.ph/gJL56, https://archive.ph/lEIGU, https://archive.ph/ay4Hp, https://archive.ph/xrCPl e https://archive.ph/cLvoQ (exemplos).

As redes encheram-se também de dezenas de vídeos associados ao tema, como o do alegado apedrejamento de várias viaturas da polícia espanhola, em Ceuta ou em Melilla, consoante as fontes: https://archive.ph/9iZ5u, https://archive.ph/IxmIi e https://archive.ph/TuPEm (exemplos).

Entre as contas que partilharam essas imagens e outras de alegados confrontos em Ceuta está a AfD, o partido de extrema-direita alemão, em publicações que já ultrapassam os 3 milhões de visualizações no Facebook, Instagram e X (antigo Twitter): https://archive.ph/Z2dOV, https://archive.ph/GdEBK e https://archive.ph/Ud6eO.

O vídeo inclui uma segunda cena de apedrejamento de viaturas da polícia junto a uma rotunda, imagens que também estão a ser partilhadas como sendo de um “confronto entre policiais espanhóis e ilegais islâmicos que invadiram Ceuta e Melilla”: https://archive.ph/NDniO e https://archive.ph/Rhv4j (exemplos).

Factos: atravessaram a fronteira milhares de homens, mulheres e crianças, mas os vídeos dos confrontos com autoridades foram gravados em Marrocos 

A narrativa da invasão realizada só por migrantes homens em idade militar, sem qualquer mulher, não resiste a meia dúzia de minutos de leitura dos principais órgãos de comunicação social espanhóis ou de visionamento das imagens das agências espanholas e internacionais.

Há dezenas de registos da entrada de mulheres, jovens e crianças, bem como de famílias inteiras com bebés, como narram e mostram as reportagens feitas no local: https://archive.ph/VN4zM, https://archive.ph/V0Llt, https://archive.ph/bCNpv, https://archive.ph/31ydAhttps://archive.ph/Tic2i, https://archive.ph/HwcQj, https://archive.ph/GUKHB e https://archive.ph/yxG8X (exemplos).

O alegado ataque à polícia espanhola, nomeadamente o apedrejamento de viaturas em Melilla ou em Ceuta, também não é confirmado pela verificação de factos através da análise das imagens e da comparação das viaturas visíveis no vídeo com as das autoridades presentes dos dois lados da fronteira.

Na verdade, as imagens registam a agressão a viaturas de dois serviços marroquinos de segurança pública, a Gendarmerie Royale e a Sûreté Nationale, dado que a decoração e os símbolos correspondem a essas forças marroquinas: https://archive.ph/EJUml e https://archive.ph/K8Qs6.

Além disso, o tipo de via e de iluminação pública também revela que são imagens captadas na estrada entre a cidade marroquina de Fnideq e a fronteira de Ceuta (https://archive.ph/M5IqG) e não em Melilla, enclave espanhol situado a mais de 200 quilómetros.

Já as imagens de jovens a atirar pedras às autoridades numa rotunda, foram filmadas na cidade fronteiriça marroquina de Beni Ansar, junto à cidade autónoma de Melilla, e não em Ceuta, como afirmado.

Comprovam-no vários vídeos de media marroquinos e internacionais, bem como verificadores espanhóis: https://archive.ph/Bye0, https://archive.ph/pSW9w, https://archive.ph/ewomq e https://archive.ph/KQTHV.

Também circulam vídeos antigos que estão a ser partilhados de forma desinformativa, como estas imagens (https://archive.ph/r3fMa) que na verdade são de uma crise migratória anterior, promovida por Marrocos em 2021 (https://archive.ph/JMuXX).

Há até um vídeo de uma comemoração religiosa na Turquia que está a ser atribuído a Ceuta, como já foi verificado pelo Prova dos Factos, do jornal Público (https://archive.ph/G3a1A), e pelos verificadores espanhóis da EFE Verifica (https://archive.ph/BFCHo), do Newtral (https://archive.ph/kXg3c) e da VerificaRTVE (https://archive.ph/8Ldz5).

Avaliação Lusa Verifica: Falso, mas

Como é habitual em ‘breaking news’, sobretudo quando envolvem temas mais polarizadores como imigração ou segurança, as redes sociais encheram-se de conteúdos falsos ou descontextualizados sobre a crise migratória registada nos últimos dois dias nos enclaves espanhóis de Ceuta e de Melilla, no norte de Marrocos, que é real e já deixou perto de seis dezenas de mortos: https://archive.ph/G8VV1.

Este episódio ainda tem muito por esclarecer, mas é notório que circulam narrativas falsas promovidas pela extrema-direita e que estão a ser partilhados vídeos autênticos de forma enganadora, em alguns casos porque são imagens de confrontos em Marrocos que são partilhadas como tendo ocorrido nos territórios espanhóis, e noutros porque são imagens de outros acontecimentos e até de outros países que estão a ser reutilizadas para fazer desinformação.

Fonte: www.noticiasaominuto.com

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