“O prolongamento da operação das centrais espanholas [até 2030] é benéfico para Portugal”, disse à Lusa Bruno Soares Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, acrescentando que estudos de várias consultoras estimaram que o encerramento das centrais poderia aumentar o preço da eletricidade em Espanha em “pelo menos 12-15 euros por megawatt-hora (MWh)”.
“Como os dois mercados estão bastante integrados e, regra geral os preços são similares, isto significaria que esse aumento irá refletir-se no preço da eletricidade em Portugal”, acrescenta.
António Vidigal, consultor e especialista em energia e tecnologias de informação, partilha da mesma opinião, apontando que “em princípio” é “uma decisão favorável para Portugal”.
“Mantendo-se os restantes fatores constantes, conservar durante mais alguns anos cerca de 2.000 MW de produção nuclear de elevada disponibilidade e baixo custo marginal aumenta a oferta disponível no mercado ibérico e tende a exercer uma pressão descendente sobre os preços grossistas, reduzindo também, em determinadas horas, a necessidade de recorrer à produção a gás natural”, explica o antigo diretor da EDP Inovação.
A decisão espanhola surge num contexto europeu do regresso do nuclear à agenda energética, depois de anos em que a transição energética esteve sobretudo associada ao crescimento das fontes renováveis. França, Reino Unido, Suécia, Finlândia, Chéquia, Polónia e Itália estão entre os países que têm vindo a considerar novos investimentos ou a reforçar o papel da energia nuclear.
“Os vários países que estão a considerar o nuclear querem eletrificar a sociedade e indústria, reduzir custos das eletricidade e aumentar a competitividade e reduzir a sua dependência energética”, afirma Soares Gonçalves.
“É possível que os vários países que estão a considerar o nuclear estejam errados. É possível que a Comissão Europeia esteja errada. É possível que a Suécia, a Chéquia, a Finlândia, a Polónia, a França, o Reino Unido e a Itália estejam errados”, refere, acrescentando que, “se for esse o caso, seria útil perceber porque razão tantos países chegaram simultaneamente à mesma conclusão”.
Para o investigador, esta opção não representa um recuo face às políticas energéticas que têm vindo a ser seguidas uma vez que vários países têm concluído que a presença de energia nuclear pode reduzir os custos globais da descarbonização, ao assegurar produção firme e limitar a necessidade de redes, armazenamento e capacidade de reserva para compensar a variabilidade da produção solar e eólica.
“As renováveis têm um papel muito positivo no mix energético, mas o sistema elétrico não se pode basear apenas em renováveis, mesmo apoiadas por baterias, já que não podem garantir um abastecimento ao sistema 24×7”, afirma.
É neste ponto que surge a divergência sobre o papel de Portugal. Bruno Soares Gonçalves defende que o país deve estudar a opção nuclear, considerando os custos de todo o sistema elétrico e não apenas o preço de produção de cada tecnologia.
“Portugal pode dar-se ao luxo de ficar ausente de uma indústria estratégica que vários parceiros europeus estão a reconstruir?”, questiona.
António Vidigal é mais cauteloso e considera que Portugal não está necessariamente em desvantagem por não ter nuclear.
“Portugal tem conseguido, em muitos períodos, preços grossistas de eletricidade competitivos face a países europeus com produção nuclear”, salienta, apontando para a combinação de energia solar, eólica e hidroelétrica como uma vantagem nacional.
Para o especialista, uma central nuclear convencional de grande dimensão enfrentaria desafios particulares num sistema elétrico de dimensão relativamente pequena e com forte crescimento das renováveis. A sua competitividade teria, por isso, de ser demonstrada através de uma análise do sistema elétrico português.
António Vidigal sublinha também a diferença entre prolongar centrais existentes e construir novas instalações. No caso de prolongamentos mais longos, “nomeadamente até aos 60 anos de operação”, são normalmente necessários investimentos significativos na modernização dos equipamentos e sistemas de segurança, “que podem atingir valores da ordem dos mil milhões de euros por reator” e tenderão a aumentar o custo da eletricidade produzida.
O especialista considera ainda particularmente importante acompanhar “de perto o que acontecer em Espanha”, já que “a decisão espanhola sobre o futuro dos seus sete reatores é particularmente importante para Portugal, porque os dois sistemas elétricos estão fortemente integrados”.
Portugal deve ainda “reforçar a cooperação com Espanha em matérias como segurança nuclear, preparação para emergências e acompanhamento da gestão dos resíduos radioativos”, defende.
“Qualquer que venha a ser a decisão de Espanha sobre o futuro da sua capacidade nuclear, estes são aspetos relevantes para Portugal”, acrescenta.
Bruno Soares Gonçalves defende que Portugal não tem de decidir já construir uma central, “mas sim decidir se quer ter capacidade para avaliar essa opção quando ela fizer sentido”.
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